O mercado das apostas digitais no Brasil, popularmente chamadas de "bets", passa por uma mudança radical. Em uma decisão recente que altera todo o setor de jogos e apostas, o governo federal editou uma Medida Provisória (MP nº 1.394/2026) proibindo as apostas esportivas e os cassinos on-line no país.
Para entender essa mudança, é preciso analisar a trajetória dessas plataformas, o seu modo de operação e os motivos alegados para a interrupção das atividades.
A liberação inicial das apostas de cota fixa — em que o usuário sabe exatamente o valor do retorno antes de apostar — ocorreu em dezembro de 2018. Na época, o ex-presidente Michel Temer sancionou a Lei nº 13.756/2018, permitindo apostas esportivas e prevendo o prazo de dois anos (renováveis por mais dois) para criar as regras de funcionamento.
Porém, entre 2019 e 2022, o setor operou sem uma regulamentação definitiva. Como as sedes das empresas ficavam no exterior, elas podiam oferecer os serviços no país sem pagar impostos locais nem seguir exigências rígidas de proteção ao consumidor.
Em dezembro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 14.790/2023, buscando regulamentar o mercado. A norma passou a exigir o pagamento de taxa de autorização (outorga), cobrou impostos sobre os ganhos das empresas e prêmios dos apostadores, além de integrar aos critérios legais os jogos virtuais aleatórios, como os cassinos on-line.
Como as plataformas funcionam?
As plataformas de apostas digitais dividem-se em dois modelos principais:
Apostas Esportivas: O usuário tenta adivinhar dados de uma partida real, como o vencedor de um jogo de futebol ou a quantidade de cartões aplicados. As probabilidades (chamadas no meio de odds) definem o prêmio exato caso o palpite esteja correto.
Jogos Virtuais e Cassinos On-line: São apostas em programas digitais e caça-níqueis (conhecidos popularmente como "jogo do tigrinho" ou "jogos crash") que utilizam algoritmos de sorteio aleatório.
A facilidade para depositar e sacar dinheiro por meio de transferências instantâneas (como o Pix), somada ao uso intensivo de propaganda com influenciadores e patrocínios em clubes de futebol, provocou um rápido aumento no público participante.
Quais os motivos apontados para a proibição?
O governo decidiu interromper a operação das bets por conta dos impactos sociais, econômicos e de saúde registrados nos últimos anos:
- Endividamento das Famílias: Levantamentos econômicos indicaram que parte relevante da renda familiar vinha sendo direcionada aos jogos, afetando a compra de itens essenciais e aumentando os índices de inadimplência.
- Saúde Pública: Médicos e especialistas relataram um crescimento perceptível na procura por atendimento psicológico e tratamento para o vício em jogos (ludopatia).
- Uso de Recursos de Programas Sociais: Relatórios apontaram que beneficiários de programas de transferência de renda estavam gastando parte dos benefícios em palpites e cassinos.
- Segurança e Manipulação de Resultados: As autoridades citaram investigações sobre manipulação em partidas esportivas e o risco de o setor ser usado para lavagem de dinheiro.
Como fica a situação dos apostadores?
A Medida Provisória (MP nº 1.394/2026) determinou a interrupção imediata de novos depósitos e da veiculação de anúncios.
Segundo o cronograma oficial estabelecido:
- Até 5 de outubro: Os usuários têm prazo para retirar voluntariamente os valores restantes nas contas das plataformas.
- A partir de 6 de outubro: As plataformas e os aplicativos de apostas devem sair do ar em todo o país.
- Devoluções bancárias: Os valores remanescentes não retirados a tempo serão repassados aos bancos para devolução integral aos titulares de cada CPF cadastrado.